Cerveja de Abadia Belga

Deguste uma cerveja de abadia Belga e você vai saborear os frutos de uma longa tradição que, felizmente, é viva até nos dias atuais.

Durante séculos, as abadias foram o “motor” da economia na Europa.

Além disso, como os monges eram alfabetizados.

Foram eles que passaram os conhecimentos através do tempo (dentre esses, o conhecimento cervejeiro) e foram considerados os primeiros “cientistas” cervejeiros.

Por exemplo, a alemã Abadessa Hildegard von Bingen escreveu sobre as qualidades do lúpulo no inicio do século 12.

Essa descoberta logo se espalhou e o lúpulo começou a ser um dos protagonistas na fabricação da cerveja ajudando a preserva-la ao longo do tempo.

Em pouco tempo o lúpulo substituiu a mistura de ervas chamada “Gruit” que era usada na fabricação de cerveja, e em muitos mosteiros na Europa começou a ser normal o cultivo de campos lúpulo.

A fabricação de cerveja era uma atividade diária das abadias, a cerveja era considerada uma alternativa saudável a água (que muitas vezes era de qualidade baixa e não potável).

Ao longo dos séculos os monges fizeram contribuições significativas para o desenvolvimento da ciência da fabricação de cerveja.

Cerveja de avabdia Abadessa Hildegard-Von-Bingen

Abadessa Hildegard von Bingen

Cerveja de abadia: Monges perseverantes

No entanto, as abadias não estavam a salvo do fogo, guerras ou saques.

A Revolução Francesa (1789-1794) destruiu inúmeras abadias e com elas muita sabedoria cervejeira.

Os monges foram forçados a fugir, edifícios foram reduzidas a escombros.

A partir do século 19 em diante novos mosteiros foram fundados ou então os próprios monges restabeleciam abadias, que eles mesmos construíam a partir do zero.

As cervejarias belgas de abadia mais antigas e ainda em atividade remontam desse período.



Cerveja de abadia, não é um estilo?

Cerveja de Abadia (Abbey Beers) não é um estilo de cerveja.

Isso pode gerar confusão, pois essa categoria compreende cervejas muitas vezes produzidas por cervejarias comerciais sob a licença das abadias (pagando royalties)

Cervejas que geralmente tem no nome referencias eclesiásticas, as vezes inexistentes fora da Bélgica.

Geralmente de inspiração Trapista: fortes, complexas, várias cores, geralmente de alta gradação alcoólica, algumas vezes temperadas com especiarias e refermentadas na garrafa.

Exemplos comuns de estilos produzidos por abadas belgas: Dubbel, Tripel, Quadrupel, Blond, Strong Golden Ales.

Em muitos casos estamos falando de abadias que deixaram de fabricar cerveja há muito tempo, restando apenas suas ruínas que testemunham um passado, muitas vezes glorioso.

Cerveja de abadia - mosteiro trapista

Mosteiro Trapista

Cerveja de abadia: Qualidade

A Federação das Cervejeiras Belgas (Belgische Brouwers’/’Brasseurs Belges) trouxe esclarecimentos à história das cervejas de abadia em 1999, criando o selo de qualidade Cerveja de Abadia Belga (Recognised Belgian Abbey Beer) em uma tentativa de combater falsos produtos comerciais.

Este selo de aprovação tranquiliza e informa o consumidor de que existe uma ligação histórica comprovada entre a cerveja e uma abadia existente.

As comprovações podem incluir escritos antigos referentes à atividade de fabricação de cerveja, desenhos ou pinturas que descrevem uma cervejaria.

Ou então, achados arqueológicos relacionados com a fabricação de cerveja feito dentro dos muros da abadia.

Hoje em dia, embora os próprios monges não estejam envolvidos na fabricação de cerveja, eles encarregam-se da imagem da marca das cervejas que levam o nome das suas abadias (mesmo que seja somente para fins de marketing)

Supervisionam a sua reputação, certificando-se de que os padrões éticos de negociação são seguidas.

Cerveja de Abadia: Bélgica é o lugar

Em toda a Bélgica pode-se encontrar mais de vinte cervejas de abadia reconhecidas, por exemplo:

  • Abbaye d’Aulne fabricada por Brasserie du Val de Sambre;
  • Ename fabricada por Roman, e Saint-Feuillien fabricada pela abadia de mesmo nome.

Na maioria das vezes se referem a nomes das abadias que já não existem mais.

Um exemplo disso é a a cerveja Abbaye d’Aulne, que hoje em dia vive do marketing das ruínas do que um dia foi uma abadia esplendorosa nas encostas do Rio Sambre.

A cerveja Ter Dolen da cidade de Limburg, usa esse nome derivado de um castelo que costumava ser um refugio espiritual dos monges da abadia de Sint.Truiden.

Val-Dieu, localizado em Aubel perto de Liège, é um dos poucos mosteiros que ainda têm uma cervejaria no local. A visita inclui um passeio da abadia e a cervejaria no seu interior.

Cerveja de abadia: ruinas de Abbaye d'Aulne

Ruinas de Abbaye d’Aulne

Cerveja de abadia: Nomes eclesiásticos

A ideia de nomear as cervejarias com nomes eclesiásticos, é um fato um pouco moderno.

O padre Atout (abade prior da Abadia de Maredsous) não costumava documentar e anotar sobre as receitas e lotes das cervejas produzidas até 1950, porque o objetivo era oferecer, aos numerosos peregrinos, uma alternativa à água.

O membro mais novo da família das cervejas de abadia reconhecidas é a Averbode, em 2013.

As cervejas de abadia fazem um grande esforço para serem distintivas.

Muitos deles têm um perfil de sabor, fermentação, maltes e até mesmo lúpulos muito definidos e particulares.

E até mesmo a proposta de mercado é diferente entre elas.

Affligem por exemplo, é uma cerveja para pessoas um pouco mais conhecedoras, enquanto Grimbergen é destinado a um público mais amplo.

Sem dúvida, a mais conhecida cerveja de abadia belga é Leffe que deriva seu nome da Abadia de Dinant.

Desde a sua criação, Leffe tem crescido em proporção internacional, desde 1952 propriedade da Interbrew (agora AB InBev).

Expedição Cervejeira Bélgica 2018